domingo, 8 de julho de 2018

PS n. 1



Ele se deitou, assim, ainda surpreso,
com os olhos estatelados, em direção ao nada.
Parecia não acreditar, não queria se ouvir, se sentir.
Voltava no tempo feito fita de vídeo,
para morder os lábios ao se perguntar, insistentemente, por que
apenas se despediu, levando nas mãos um cortês beijo, nem tão molhado.
Se tivesse olhado para trás, teria percebido,
que ao final da noite é necessário coragem
para dizer eu te amo.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Proibido estacionar




Vida de mão dupla:
correr na contra mão para fazer de mim 
meu próprio tráfego. 









Créditos da imagem: http://www.neilkrug.com/On-the-Road

sábado, 29 de julho de 2017


Para um bom mergulho num mar de possibilidades
é mais prudente perder o fôlego. 







Fonte da imagem: https://ninhodejornal.wordpress.com/2016/05/23/imersao-por-que-e-importante-ouvirmos-e-aprendermos-mais-sobre-a-sua-marca/

Fonte da imagem: 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

(Re)trato



Ofertou-me um amor 
que só existe como efeito 
de um pharmakon:
em vez de sanar a doença,
envenena cada centímetro do corpo. 
Onde se respirava vida
restou apenas a poeira do deserto.
Feito a ausência com a qual me preenchera
para ter-me em seus braços mais uma vez.

Sua palavra vale menos
que um vintém que eu daria ao boticário
para que eu tivesse uma chance 
de ser imune às suas promessas vazias.
A vantagem de já ter sido vitimada
por um escorpião traiçoeiro
é que agora criei resistência 
ao seu hábito de fingir que tenho 
alguma significância para ti.

E como numa epifania, numa maçã mal mordida
reencontrei meu eixo gravitacional.
Nada como uma boa dose de veneno,
amargo,  de um pequeno frasco,
para comemorar a morte certa
do que antes me torturava.
Há liberdade maior que poder recusar
um convite a lugar nenhum?

De agora em diante, de minha boca,
terás apenas frescor do mais profundo silêncio.
Prefiro a minha solidão voluntária
a qualquer noite vazia que poderia ter contigo.
Do meu corpo,
resta a ti apenas a memória do meu perfume.
Nem em seus mais funestos delírios etílicos,
que geralmente são culpabilizados
pelo egoísmo febril que há em você,
compartilharei contigo a mesma cama.

Resta-lhe apenas 
uma fotografia desbotada,
de um tempo em que pude lhe dar tempo
e fizeste dele um poema
eternamente engavetado em seus rascunhos.










Créditos da imagem: https://pt.depositphotos.com/40726743/stock-photo-empty-picture-frame-isolated-on.html


Notas sobre o desapego: 
ao amar saltamos no abismo,
de olhos abertos.












Créditos da imagem: "ballon girl", stêncil de Banksy, em Londres. Disponível em: http://followthecolours.com.br/art-attack/banksy-recria-ballon-girl-para-marcar-conflito-na-siria/

A vida é um sopro

Nesse hiato entre o nascer e o morrer aproveita-se o tempo sempre esperando o dia seguinte, como se fosse certo um futuro que é apenas uma promessa. Ora, o tempo que temos é o presente. Um hiato de 24 horas entre o nascer e o morrer que pensamos ter o poder de estendê-lo por mais alguns minutinhos que seja - mas não podemos.

Criamos o hábito de depositar no futuro a nossa esperança, a nossa felicidade, o amor que não veio; sendo que tudo isso pode ser usufruído imediatamente naquilo que temos nesse instante, mesmo que seja diferente do que idealizamos em nossas expectativas. A propósito, expectativa, meu caro, é o caminho mais longo para viver o amor, que deixa de ser sentido para se tornar um projeto cuja sustentação é um ideal.

O amor está aqui, ó, enraizados em nós mesmos, embora tendemos a nos deixar no banco de reserva por medo de admitir que somos os únicos responsáveis pela felicidade que queremos viver. Nesse jogo do devir, o outro entra em campo para somar num espaço em o amor já é vivido a todo instante, dentro de nós. De tanto esperar algo que supostamente não está na vida presente, nem percebemos o quanto exigimos do outro algo que deveríamos fazer por nós mesmos. Sequer pensamos que esse outro, inclusive, é uma pessoa e não a impressão fenomênica do nosso ideal.

Temos tanta pressa para chegar no futuro que ignoramos o quanto poderíamos aproveitar mais nossas conquistas cotidianas, as pessoas que estão conosco no dia a dia, em nossa família, no nosso grupo de amigos. Temos tanta crença num futuro vindouro e tão pouca fé no presente... Enxergamos tanto amor no futuro e tão pouco amor no presente, já que só o vemos naquilo que não temos.

Só que a vida, meu caro, é um sopro. E num piscar de olhos o tempo se dobra, feito um bilhete num guardanapo que colocamos no bolso....


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Aquiles



Invulnerável apenas no meu calcanhar. 





Fonte da imagem: http://maurilioferreiralima.com.br/2011/11/o-calcanhar-de-aquiles-2/