sexta-feira, 21 de julho de 2017

(Re)construção



O bom veneno, 
responsável pelo aniquilamento
do parasitismo existencial: 
se livrar do que pesa contra
a cria-atividade de si,
do que pesa mais que a bagagem inexorável
a quem se atreve a se fazer-se(r) quem se é.

Por uma afirmação da vida,
paradoxalmente é bem vinda a morte
do que não é bem vindo mais.
Do que não passa de ouro de tolo,
ou um lampejo falso no escuro.




Fonte da pintura: http://jhulyjohns.blogspot.com.br/2008/07/pinturas-da-morte.html



domingo, 21 de maio de 2017




Local de (r)existência.








Créditos da imagem: https://br.pinterest.com/pin/319544536046043218/

sábado, 6 de maio de 2017

Resolução


Por trás dessas fatigadas vistas
há um ponto de fuga 
onde é preciso estar 
toda vez que tentam me fazer
desacreditar no amor.

Um dois três (des)encontros
em que (re)encontro comigo mesmo.
Meus delírios mais parecem um dejà-vu
quando na verdade são apenas 
memórias engavetadas na empoeirada
prateleira da desilusão:
uma companhia vazia
não vale mais que minha solidão.





segunda-feira, 1 de maio de 2017

Paralelas



Da minha experiência com a morte
pensei herdar a força de dois titãs
acreditei que havia criado resistência
que eu conseguiria lidar melhor
com a brevidade da vida.
Eis que me vejo aqui, mais uma vez
com o coração dilacerado
pulsando uma vida vazia de sentido
que busca amor e por hora só encontra 
um vale de saudades do que já foi
do que não foi e do que não será (ou será?)
Devo suportar o dia
um de cada vez, como num jogo de xadrez
em que se escapa por um triz do cheque mate.
Sorte ou azar? Quem há de saber,
o que resta é o silêncio perverso
da sensibilidade que me habita
e por vezes parece decompor em minha pele
a crueldade de se apaixonar por tudo que
me inspira a existir nesse mundo tão patético.
Quero ser como Belchior
amar e mudar as coisas
Mas tem hora que a vida aperta demais
esse coração frágil e violentado constantemente
pelas dores das quais não é possível se livrar
pois faz parte de quem sou, assim, inteira.
Depois de tantos versos
que renegociam o lugar que essa dor pungente
deve habitar em minha memória,
as palavras irrompem a página em branco,
e feito água no deserto 
tenho a chance de me reinventar sempre que possível
Refaço-me, troco de pele, viro o disco 
volto a respirar tranquilamente
e paro de acordar no meio da noite
procurando absolutamente nada. 
O amor precisa ser um mantra diário
para que o infinito seja eu.

Para Belchior, o eterno poeta do meu coração selvagem. 


Fonte da imagem: http://www.xavierdevelopment.com/

segunda-feira, 27 de março de 2017

Outono


Campo de flores amarelas - Van Gogh, 1889

Quando um sentimento tão sublime
vive de sua própria seiva
da luz indireta sobre sua folhagem
e desabrocha
e floresce
e padece
num ciclo de vida e morte
onde o que resta é a memória
das mais belas flores mortas. 

segunda-feira, 13 de março de 2017

Velhos e novos valores



Amar e mudar as coisas me interessam mais. Mas me proponho outra assertiva a partir dessa poética de Belchior.

Me lembrei dessa passagem da música "alucinação" logo após conversar horas a fio com um amigo sobre o quanto somos expert em complicar os sentimentos. São tantos "e se" que teimam em evitar novos (?) começos que por vezes nos comportamos como meros passageiros apreciadores da paisagem na janela. E, vendo tudo passar, o que fica? A imaginação quase infrutífera de como poderia ter sido e ... não foi nada? Ou a expectativa de guardar as experiências para o futuro, que nada representa além de uma promessa de felicidade?

Será que o amor seria algo tão propenso a causar dor que acaba nos calejando a cada ciclo de frustração? Creio que não. Esse calo é calcado por nós mesmos, quando nos deparamos com questões de foro íntimo as quais não queremos lidar e, por isso, as abandonamos entre uma história e outra. Nem todo mundo está disposto a olhar para dentro de si e se perguntar o porquê do fracasso nas relações, numa auto avaliação em que se busca reconhecer as limitações e as inflexibilidades. De fato, é evidente que não há receita de bolo para o sucesso quando estamos falando da incomensurabilidade de ser humano. Para cada um as coisas tendem a funcionar de modo diferente. Porém, é possível elaborarmos um consenso que de certo modo serve de sedimento às relações e sem abrir mão da singularidade: aquela coisa aristotélica de encontrar um caminho do meio evitando-se as extremidades pode ser um deles.

Aristóteles defendia que o fim último do homem é a felicidade. O calor do pleonasmo conduz à conclusão um tanto apressada - e já contrária ao pensamento aristotélico, nesse contexto em que estamos nos apropriando dessa interessante reflexão - de que essa felicidade se encontra num tempo ou num lugar que eu não habito e devo buscar. Na verdade, o estagirita sugeriu que nossas ações tem como fim a felicidade, que não vamos fazer algo premeditadamente para sermos infelizes, embora isso possa acontecer em virtude das próprias decisões (ou da ausência delas) que tomamos. Essa felicidade só é possível de estar em mim quando eu me submeto a avaliação contínua de minhas ações e pensamentos, do que me norteia e serve de estímulo a novas investidas. Sem essa atividade, há um sério risco de continuarmos repetindo os mesmos ciclos, empregando as mesmas energias em contextos diferentes, mas que conduzem ao mesmo lugar de outrora, marcado pela dor, pela mágoa, pela frustração já conhecida. Sem essa atividade, o amor oscila entre o excesso e a falta: me entrego às cegas para evitar a solidão a qual nunca me dispus a pensar a respeito ou me retraio e me fecho numa concha para não se abrir a nenhuma nova história. 

Ora, o que não se compreende por puro medo do que pode vir a encontrar dentro de si é que os dois comportamentos são causadores de outra espécie de sofrimento, embora ilusoriamente acreditemos que estamos evitando-o. Não se evita uma contingência. Mas é possível dribá-la ao construirmos novas formas de recomeço, ao transformar o amor em potência em atividade, numa inesgotável tarefa de lidar com as experiências de coisas reais. Sem trabalho, não há como simplificar a equação de nossos sentimentos, nem mudar a direção para onde eles nos conduzem. Sim, amar é mudar as coisas. E isso deve nos interessar muito mais. 



Créditos da imagem: http://startransportesemudancas.pt/author/admin/



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Re-ciclagem



Li outro dia que a liberdade não é apenas alçar voos, mas também escolher pousar. Isso me levou a pensar no quanto podemos estar nos enganando quando ou achamos que somos livres por nunca pousar em lugar nenhum ou porque ao pousarmos nos colocamos numa situação definitiva. 

A liberdade tem a ver com a capacidade que nós temos de nos posicionar frente a vida, tomando as nossas próprias decisões a partir daquilo que sentimos ou pensamos. Tem momentos que essas decisões estarão relacionadas com as iniciativas que precisamos ter frente determinadas situações, exigindo que nós nos lancemos numa nova jornada ou que aceitemos os novos desafios que nos foram propostos. Sim, a mudança nos provoca a alçar voos, deixando para trás o que não há mais a menor possibilidade de progresso, aquilo que se estagnou por algum motivo o qual talvez nunca saibamos qual é. Isso é a contingência, da qual não temos escapatória. Também haverá aqueles momentos em que precisaremos avaliar se não é a hora de "fincar os pés na terra" e permitir que as raízes se firmem num solo novo e fértil. Esses são os momentos em que nos são ofertadas oportunidades de viver novas experiências, mesmo que estejam dentro de um nicho de coisas que já não são mais novidades para nós: um novo emprego, uma nova casa, um novo amor, por exemplo. 

Tanto para alçar voos quanto para pousar é exigido de nós a coragem de sair do lugar, da zona de conforto que costumeiramente criamos na vã tentativa de evitar o sofrimento, a frustração. Desenvolvemos essa zona de conforto para disfarçar o medo que temos de realizar um novo investimento e no fim das contas repetir as mesmas sensações, as mesmas experiências que já nos machucaram. Criamos essa zona de conforto para que não fique tão evidente o quanto temos medo de recomeçar. Mas nem tudo resulta apenas da nossa falta de coragem quanto a essas questões. Há todo um sistema de coisas que trabalham contra as próprias condições de nossa existência, recusando elementos como a contingência, o devir, a temporalidade. Há uma gama de convenções, valores, regras que pretendem nos convencer de que alçamos voos em momentos específicos, geralmente de acordo com a nossa maturidade física e intelectual; e que a decisão de pousar seja onde for é algo imperativo, ou seja, que nos coloca numa condição ou posição a qual possivelmente não irá mais se alterar. É aquela velha história de que devemos almejar o "ser feliz para sempre", omitindo-se que esse "para sempre" contraditoriamente tem prazo de validade. E aí muitas vezes sacrificamos a nós mesmos e a outros que podem estar envolvidos, sentido-nos infelizes ou não realizados por nos encontrarmos num lugar em que, mesmo que ainda tenhamos a disposição em batalhar para lidar com as diferenças, para superar as dificuldades, se torna uma força que desprendemos e que infelizmente já não dão mais resultados, por vários motivos, de acordo com a situação que nos encontramos. Esse sistema de coisas não nos mostra que tem horas que o mais proveitoso é saber parar, colocar um ponto final, mesmo que seja doloroso. Mas não. Esse sistema de coisas prefere que vivamos numa bolha, onde construímos essa estabilidade com essa convicção de que "nada mais irá mudar", sem percebemos que isso é impossível, já que até quando uma situação não se altera por completo, provocando a temida mudança, ainda assim não será sempre a mesma coisa. 

Diante do exposto, percebemos que alçar voos e pousar andam juntos, desde que tenhamos a destreza de perceber que a mudança não é algo negativo, tampouco um sinal de fracasso. Só podemos pousar novamente se nos dispusermos a mudar, a querer recomeçar do zero, enfrentando novos desafios, diferenças e dificuldades. Ou seja, só podemos pousar se alçarmos voos do lugar onde estamos e que não nos agracia mais. Só podemos pousar se tivermos a coragem de abandonar a zona de conforto na qual nos encontramos, nos propondo a vivenciar o novo independentemente do que passou. Um amigo budista me disse uma vez que temos dois sentimentos básicos que costumam orientar nossas ações: o amor e o medo. Quando o medo paira sobre nós, parte de nossa vida se congela, feito uma camada de gelo sobre a correnteza de um rio durante o inverno. Deixamos que essa correnteza leve embora as oportunidades que nos aparecem - as quais podem não mais retornar - por puro receio de sofrer mais uma vez. Quando o amor paira sobre nós, ao contrário, a vida segue o fluxo desse rio. O amor é cria-atividade, o amor é inventivo, é a vontade que nos impulsiona a desfazer-se da velha roupa colorida que não nos serve mais. Evidentemente não há garantias de que ao conduzirmos nossa vida pelo amor nos livraríamos do sofrimento. Mas se nos orientarmos pelo medo obteremos essa garantia? Também não. Desse modo, resta-nos nos conhecer o suficiente para percebermos quando permitimos que o medo ou o amor sejam nossos comparsas. E isso acontece através das nossas próprias experiências de vida, levando-se em consideração tanto o que deu certo quanto aquilo que não deu certo. E, se não deu, foi porque ousamos recomeçar um dia. 



Fonte da imagem: http://pt.depositphotos.com/27568693/stock-illustration-set-of-birds-on-wires.html